sexta-feira, setembro 30, 2005

O GOVERNO CORAGEM:

Jorge Coelho, escreveu no D.N.:
"Portugal tem vivido tempos de alguma agitação social. Nestes dias registam-se algumas greves e manifestações e para as próximas semanas estão igualmente convocadas outras formas de protesto. O primeiro-ministro já disse que a sua governação não vai ser influenciada por estes protestos e vai prosseguir as medidas que o Executivo está a tomar.
Em primeiro lugar devo sublinhar o direito que todos têm em relação às manifestações de descontentamento. Esta perspectiva geral já não se aplica ao respeito que merecem todos os protestos que têm sido realizados. Em alguns casos, perdeu a democracia - e, em particular, organizações que deveriam ter em conta o estatuto dos profissionais que representam. A questão de fundo que, no meu entender, se coloca tem a ver com o seguinte: o País encontra-se numa situação económica difícil e em particular as contas do Estado. É quase unânime que o Estado tem de cortar nas despesas. O problema é quando se avança. Se for com os "outros tudo bem. Quando me atinge, é injusto." Esta é uma situação banal na nossa sociedade (e talvez em todas as outras). Não é aliás de estranhar que, no passado recente, Portugal tenha tido governos "fortes", assentes em maiorias absolutas, mas, por exemplo, nunca houve a coragem de tomar medidas profundas na administração pública. Foi sempre uma "reforma" adiada. Compreende-se porquê e em particular com o receio das consequências a nível eleitoral.
Este Governo decidiu avançar com as medidas que considera necessárias nessas áreas. Em vésperas de eleições. Teve a coragem de decidir e de fazer aquilo que os outros nem sequer tentaram. Alguns especialistas até afirmam que muitas destas iniciativas pecam por defeito.
Concordo que algumas das decisões são polémicas, controversas e que até necessitavam de melhor explicação. O que não entendo é como algumas forças políticas e organizações criticam o que este Governo está a fazer quando, no passado, consideravam essencial avançar com estas reformas.
Quero aqui referir o despudor do líder do PSD, que, como membro de um Governo da maioria anterior, é co-responsável do estado em que o País se encontra, e agora, lavando as mãos do assunto, por causa de uns votos, discursa todos os dias com uma linguagem mais própria de um sindicalista. Pode ganhar uns votos, é certo, mas o que não ganha com certeza é a credibilidade para ser levado a sério como candidato alternativo a primeiro-ministro.
Mas, neste equilíbrio difícil entre a necessidade de serem tomadas medidas e o descontentamento que é gerado, quero elogiar o comportamento exemplar do Presidente da República. Não hesita em subscrever algumas dessas decisões difíceis e, por outro lado, tenta intermediar alguns conflitos, designadamente em áreas essenciais do Estado. Com discrição e com efeitos positivos para todas as partes. a melhor data. Deve ser uma decisão livre de constrangimentos partidários (...)".