O ENGENHO DOS PRIVILEGIADOS:
O Juiz Conselheiro Artur Costa escreveu no J.N.:
"Nesta espécie de PREC de novo rosto que estamos a atravessar, há por aí muito privilegiado a indignar-se com os privilégios dos outros. Alguns provavelmente até terão um pé na função pública, o que lhes permite dizer que também são atingidos, para darem aquele ar de cidadãos exemplares que sabem sacrificar-se pelo bem comum, mas o outro pé têm-no bem seguro em qualquer sinecura que lhes dá bons réditos por fora e que lhes permite a magnanimidade do sacrifício. Outros não são dos quadros da Administração Pública, mas desempenham cargos de gravíssima responsabilidade em empresas do sector público, onde são administradores, gestores ou detêm cargos equiparados que lhes dão, naturalmente, um estatuto remuneratório à parte e o estatuto de poderem falar dos privilégios dos outros com a devida prosápia. Outros ainda são da "privada", ou seja de um sector que, por natureza, escapa à noção de privilegiamento, segundo os critérios que vão fazendo carreira. Se são pagos principescamente ou auferem vastos proventos da sua indústria, se usufruem de várias benesses, como cartões de crédito, carros ao dispor, combustível, seguros de saúde especiais, engenhosos abatimentos à colecta e vários incentivos fiscais, que muitas vezes cumulam com processos de evasão ao fisco, tudo isso se deve, sempre naturalmente, à sua capacidade de risco, à sua sábia organização das coisas e ao seu imenso talento, tudo atributos que escapam aos outros pobres mortais. E há ainda profissionais de outras corporações que se julgam acima de privilégios, mas que, pelos vistos, também gozam de alguns. Vital Moreira, no "Público" do dia 4 passado, arrola mais duas categorias a dos advogados e a dos jornalistas. E a lista poderia talvez aumentar. É uma questão de ir à caça" (sublinhado nosso).


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