«A Arte do Aplauso»
«A crise na justiça está a chegar ao limite. O presidente do Supremo fez uma figura deplorável no congresso dos juízes. O ministro da Justiça acabou a comentar a arte do aplauso... O pântano regressa à superfície.
A atmosfera entre juízes e Governo é irrespirável. Pelo caminho que as coisas levam, já ninguém vai sair bem do confronto, como o congresso dos juízes amplamente demonstrou. O Presidente da República fez um lúcido apelo ao diálogo, mas não deixou rasto. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça fez uma figura deplorável. O ministro da Justiça foi dizer que está a defender o interesse público, mas ninguém o levou a sério naquele palco. Acabou a comentar a arte do aplauso... O problema está aí já ninguém se leva a sério e discute-se apenas a superfície dos problemas, não a substância. E ela é agora, como no passado recente, o chamado pântano, realidade estrutural e não puramente circunstancial da vida portuguesa. Juízes e Governo são um lastimável exemplo, a derradeira metáfora, desse pântano que António Guterres imortalizou no plano político, associando-o à ingovernabilidade do país em clima de maiorias relativas, mas o pântano é muito mais do que isso. Ele está no duplo estrangulamento a partir do qual se constroem as relações de corrupção, tráfico de influências e clientelismo que conduziram à actual situação do país: a manipulação do Estado e da lei conduzida a partir das próprias instituições. Há mais de duas décadas que o crime que provoca dano à economia está no coração do Estado e o seu abafamento até um nível de lume brando nos meandros opacos da justiça. Agora, a panela está a ferver no subsolo mas nem o Governo nem as magistraturas têm respostas eficazes para baixar o lume. O Governo não demonstrou, nem este nem os anteriores, real vontade de combater uma criminalidade que se move nos corredores do poder político. Por isso não lança um verdadeiro plano de ataque à corrupção. As magistraturas, sem reais meios, estão a ser empurradas para o justicialismo puro. Um dia destes a panela rebenta e o país vai pagar uma factura pesadíssima. É este clima a causa, somada à crise económica, do estado a que as coisas chegaram. É uma causa profundíssima, que arrasou o PSD e Cavaco nos anos 90, que derrubou Guterres e não aniquilou Barroso porque escapou para Bruxelas, que pode dar cabo de Sócrates. Um clima de "casos" dá sempre cabo da saúde aos líderes...»
Eduardo Dâmaso, In Diário de Notícias, 27/11/2005.
A atmosfera entre juízes e Governo é irrespirável. Pelo caminho que as coisas levam, já ninguém vai sair bem do confronto, como o congresso dos juízes amplamente demonstrou. O Presidente da República fez um lúcido apelo ao diálogo, mas não deixou rasto. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça fez uma figura deplorável. O ministro da Justiça foi dizer que está a defender o interesse público, mas ninguém o levou a sério naquele palco. Acabou a comentar a arte do aplauso... O problema está aí já ninguém se leva a sério e discute-se apenas a superfície dos problemas, não a substância. E ela é agora, como no passado recente, o chamado pântano, realidade estrutural e não puramente circunstancial da vida portuguesa. Juízes e Governo são um lastimável exemplo, a derradeira metáfora, desse pântano que António Guterres imortalizou no plano político, associando-o à ingovernabilidade do país em clima de maiorias relativas, mas o pântano é muito mais do que isso. Ele está no duplo estrangulamento a partir do qual se constroem as relações de corrupção, tráfico de influências e clientelismo que conduziram à actual situação do país: a manipulação do Estado e da lei conduzida a partir das próprias instituições. Há mais de duas décadas que o crime que provoca dano à economia está no coração do Estado e o seu abafamento até um nível de lume brando nos meandros opacos da justiça. Agora, a panela está a ferver no subsolo mas nem o Governo nem as magistraturas têm respostas eficazes para baixar o lume. O Governo não demonstrou, nem este nem os anteriores, real vontade de combater uma criminalidade que se move nos corredores do poder político. Por isso não lança um verdadeiro plano de ataque à corrupção. As magistraturas, sem reais meios, estão a ser empurradas para o justicialismo puro. Um dia destes a panela rebenta e o país vai pagar uma factura pesadíssima. É este clima a causa, somada à crise económica, do estado a que as coisas chegaram. É uma causa profundíssima, que arrasou o PSD e Cavaco nos anos 90, que derrubou Guterres e não aniquilou Barroso porque escapou para Bruxelas, que pode dar cabo de Sócrates. Um clima de "casos" dá sempre cabo da saúde aos líderes...»
Eduardo Dâmaso, In Diário de Notícias, 27/11/2005.


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