30 anos depois do 25 de Novembro de 1975
«Trinta anos depois dos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975, quando o país esteve a um pequeno passo da guerra civil, é mais fácil reter apenas o essencial, desligado dos inúmeros episódios - trágicos, uns; bizarros e anedóticos, outros - que compõem a história completa de um período louco e perigoso da vida portuguesa recente. A institucionalização da democracia chegou a seguir. Ao longo de todo o Verão e começo do Outono de 1975, confrontaram-se, basicamente, duas concepções de modelo de sociedade para Portugal. Uma, de matriz europeia, sustentada numa democracia representativa; e uma segunda, importada das experiências comunistas na então União Soviética e em Cuba, por exemplo, que tinha no PCP o seu maior difusor. Os militares, no poder desde o 25 de Abril de 1974, dividiram-se entre os dois apelos e tornaram-se nos principais protagonistas de uma disputa que terminou com a vitória das forças moderadas, precisamente no dia 25 de Novembro de 1975, quando uma revolta iniciada por tropas pára-quedistas, que contariam, numa segunda fase, com o apoio de unidades do Exército e da Armada, foi sustida e derrotada. Na madrugada de 25, forças pára-quedistas assaltaram e tomaram o Comando da Base Aérea nº 1, em Monsanto, e as bases aéreas nº s 3, 5 e 6, respectivamente, em Tancos, Monte Real e Montijo. Na expectativa, mas fornecendo sinais de apoio aos revoltosos, ficaram RALIS, EPAM e Regimento da Polícia Militar, unidades sediadas em Lisboa. O presidente da República (PR) e, simultaneamente, chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, general Costa Gomes, tomou o comando das operações, recorrendo às poucas forças verdadeiramente operacionais de que o país dispunha, ou seja, o Regimento de Comandos da Amadora, comandado pelo então coronel Jaime Neves; a Força Aérea, que deslocou para a Base de Cortegaça os principais meios (aviões), a Região Militar do Norte, comandada pelo então brigadeiro Pires Veloso, que enviou para Lisboa três companhias. Os focos de resistência foram sendo neutralizados ao longo do dia sem grande oposição dos revoltosos, verificando-se um confronto armado apenas na calçada de acesso ao Regimento de Polícia Militar, em Lisboa, em que morreram dois militares do Regimento de Comandos - o tenente José Coimbra e o aspirante José Ascenso. Testemunhos da época garantem que foram baleados pelas costas por civis armados. Na troca de tiros, foi também atingido mortalmente o furriel Joaquim Pires. Numa mensagem ao país, feita pelo telefone e transmitida através dos estúdios do Porto da Emissora Nacional, cerca das 22 horas, o presidente da República decretou estado de sítio parcial na região de Lisboa, uma medida que restringia o direito de liberdade de reunião. Os bancos encerraram e os jornais de Lisboa não se publicaram. No resto do país, a situação foi sempre menos tensa. A emissão da RTP passou igualmente a ser assegurada do Porto, depois de uma tentativa de um dos revoltosos - o capitão Duran Clemente - em falar ao país, a pedir apoio para os revoltosos. O Monte da Virgem pôs então no ar o único filme de que dispunha "O bobo da corte", de Danny Kaye».
In Jornal de Notícias, 25/11/2005.
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«Portugal viveu, há 30 anos, a "dramática aventura" do 25 de Novembro, que opôs militares da extrema-esquerda e "moderados", ditou o fim da revolução portuguesa e a normalização democrática do país. A expressão "dramática aventura" é do general Costa Gomes, o Presidente da República que, do Palácio de Belém, foi negociando com todas as barricadas para evitar um confronto que teria arrastado o país para a guerra civil. De um lado, estava a esquerda militar, influenciada pela extrema-esquerda e comunistas, dividida entre "gonçalvistas", próximos do ex-primeiro-ministro Vasco Gonçalves e do PCP, e "otelistas", apoiantes do estratego do 25 de Abril e chefe do COPCON (Comando Operacional do Continente), adeptos da "via revolucionária". Do outro, estavam os "moderados", congregando militares e forças à direita do PCP - incluindo o PS de Mário Soares e o PSD de Sá Carneiro -, e que acabaram por ter o aval de Costa Gomes. Um ano e meio depois da Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura mais antiga da Europa, de quase meio século, a revolução estava na rua. A banca e os seguros já tinham sido nacionalizados e a reforma agrária no Alentejo e Ribatejo estava no auge. Desde Julho, no Norte e no Centro do país, bombas destruíram sedes do PCP. Nas ruas gritavam-se vivas ao poder popular, à revolução e "abaixo os comunistas". Esse Verão de 1975 passou para a História como o Verão quente. Desde 1974, sucederam-se os golpes e contra-golpes, o 28 de Setembro, ainda em 1974, o 11 de Março, num país governado por um Conselho da Revolução. Nos jornais, durante esse Outono quente e com uma cadência quase diária, eram anunciados golpes e mais golpes. À esquerda e à direita. Chega-se então a Novembro. O barril aqueceu e está pronto a "explodir". O "rastilho" foi a escolha de Vasco Lourenço, do Grupo dos Nove, os moderados, para comandante da Região Militar de Lisboa, em substituição de Otelo, que os revolucionários viam como um chefe para a revolução socialista. Os acontecimentos precipitam-se a 20 de Novembro. Dias depois do cerco da Assembleia da República por trabalhadores da construção civil, em greve, e do sequestro do primeiro-ministro, Pinheiro de Azevedo, o Governo entra em greve. Fica para a história o desabafo de Pinheiro de Azevedo dizendo que não gostou de ser sequestrado: "Chateia-me"! E se o "rastilho" do 25 de Novembro foi a substituição de Otelo, a "faísca" foi a entrada em acção dos pára-quedistas. A unidade levantou armas em protesto contra a ameaça do chefe de Estado-Maior da Força Aérea, general Morais da Silva, de dissolver o regimento, decisão que os "páras" não aceitam. O resultado é uma sublevação dos pára-quedistas, que ocupam as bases de Tancos, Monte Real, Montijo e o Comando da Região Aérea, no Monsanto, em Lisboa. Esta revolta serviu para justificar o avanço do grupo militar dos "moderados", que, há meses, preparava um plano militar para responder a um eventual golpe da esquerda radical. Além de Melo Antunes e Vasco Lourenço e do operacional Jaime Neves, à frente dos Comandos da Amadora, surge então o nome de um militar que viria a ser Presidente da República (1976-1986): Ramalho Eanes. Seria ele o operacional do plano que deu a vitória aos moderados. Em Belém, Ramalho Eanes e Vasco Lourenço tentam convencer Costa Gomes a dar cobertura ao seu plano militar. O Presidente general vai adiando e negociando para acalmar os ânimos: com os militares "revolucionários", o PCP, para não sair às ruas e não apoiar a "aventura" dos pára-quedistas. Otelo Saraiva de Carvalho é chamado a Belém. E aí fica. Retido e impossibilitado de comunicar com as suas "tropas" no quartel do COPCON. Foram necessários dois dias para dominar a situação. Na tarde de 25 de Novembro é decretado o estado de sítio em Lisboa - a única vez que tal aconteceu. Os revoltosos ameaçavam matar o general Pinho Freire, no Comando Aéreo no Monsanto, Lisboa, mas este foi detido numa sala com telefone, que serviu para comunicar o sucedido ao Grupo dos Nove. À noite, os comandos ocupam a base do Monsanto e libertam Pinho Freire. Os confrontos acontecem no dia seguinte, 26 de Novembro. Comandos cercam as instalações da Polícia Militar em Lisboa, ocupada pelos revoltosos. Do tiroteio resultaram três mortos - dois comandos e um polícia militar.Passados 30 anos, porém, há ainda alguns aspectos menos claros. Quem deu a ordem aos "páras" para ocupar as bases? E o PCP deu aval à decisão?As respostas são contraditórias, claro, conforme se fale com derrotados ou vencedores do 26 de Novembro. Otelo nega ter sido ele. Ramalho Eanes considera que foi Otelo a dar a ordem ou que "deu cobertura". Raimundo Narciso, na altura dirigente do PCP e responsável pelas ligações do partido aos militares, hoje no PS, afirma que a ordem partiu da esquerda militar e "teve o aval do PCP". Esta última versão, porém, é desmentida por Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, passados 25 anos sobre a revolução, no livro "A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril", publicado em 1999».
In Diário dos Açores, 25/11/2005.


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