sábado, novembro 26, 2005

O clima português.

«Não haverá Plano Tecnológico que subsista a um clima social eivado de mentiras e suspeições. Percebe-se a boa vontade das intenções do Governo. Com grande parte do "seu povo" crispado contra ele, pelas medidas impopulares de constrangimento nas "regalias e direitos adquiridos" tomadas em nome do sufoco financeiro em que o país se encontra, o Governo insiste em contrapor o anúncio de programas de longo curso para ressuscitar o ensombrado "orgulho nacional" e levantar a auto-estima dos portugueses. Durante os últimos meses a deitar cá para fora essas tais medidas que, como disse o insuspeitável comentador (quanto à era socratiana) Luís Delgado, qualquer governo de Direita teria dificuldade em perpetrar, o Governo de Sócrates quer fazer despertar a fé no Portugal do futuro com a apresentação de projectos como a OTA, o TGV, o Plano Tecnológico. Não venho juntar-me, aqui, ao coro, nem dos apoiantes, nem dos detractores, da necessidade ou viabilidade desses projectos. Não é um simples acto de opinião que pode contribuir para essa posição. Provavelmente, nem a leitura dos estudos de ordem técnica e financeira dar-me-iam autoridade para esse pronunciamento. Venho tão-só referir alguns dos factores que inviabilizam, na opinião pública em geral, o efeito político procurado pelo Governo. A fé é uma propriedade dos crentes. Ora, no actual contexto, a fé no futuro deste país é uma crença muito abalada. Para a mentalidade da grande maioria das gerações actuais, o futuro não é amanhã. É hoje. O encurtamento do tempo e do espaço que as novas tecnologias - essas tais infra-estruturas e ferramentas bases a qualquer plano tecnológico - vieram trazer, aproximaram o futuro do presente. Ao menos em simulacro. Vive-se no imediato. Não é só a informação que é dada em directo. É a vida que passa em directo. Consome-se cada hora como do último momento se tratasse. O culto da vida futura é dogma do passado. Da fé dos crentes. E se não há crentes... Reorganizar a "fé" no futuro do país, ou até do Mundo, é um plano profundo. Mais do que tecnológico. Mas para essa reorganização em nada podem contribuir as guerrilhas de suspeição, em que, na visibilidade da opinião popular, se estão a envolver os responsáveis pelo pregão de que há futuro e outro futuro. Anote-se este conjunto de acusações de mentiras destes últimos dias entre representantes da mais alta hierarquia do Estado ou até de candidatos a essa qualidade. Num plano alto, o discurso do presidente do Conselho Superior da Magistratura. Num plano menos alto, para não dizer mais baixo, a disputa entre Manuel Alegre e Mário Soares, com José Sócrates de permeio, de quem fora o primeiro escolhido para candidato a ser apoiado pelo PS. Ou ainda, este feio ajuste de contas entre Mário Nogueira, do Sindicato dos Professores da Região Centro e Valter Lemos, secretário de Estado da Educação, sobre quem falta e não falta ao serviço. Ou ainda, que é o primeiro-ministro que chama a si a responsabilidade da execução do Plano Tecnológico e não o ministro da Economia que dá essa graça a Sócrates. Obviamente, dizer que os magistrados têm três meses de férias não é um slogan demagógico. É uma pegada mentira. Mas, para ficar patente a todo o país que a Justiça tem sobre si a suspeição de todos os cidadãos, basta tudo o que se está a passar e passou com o processo e julgamento do caso Casa Pia. Com responsabilidades do Estado, dos governos e das instâncias e agentes da Justiça. Somam-se as suspeitas no acerto das escolhas de Sócrates ou nas actas de Penamacor. Uma coisa é certa em clima de suspeição e mentira, não há democracia saudável. Nem povo que se convença».
Paquete de Oliveira, In Jornal de Notícias, 26/11/2005.

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