FARPAS - Curiosidade
«Foi ele quem em 1871, n’ As Farpas, assim nos definiu: «O português tem ainda o seu coração no antigo estado inculto de se detestar a si e ao mundo em que vive, porque o português desconhece ainda o homem e a natureza. O país inteiro está ainda no período juvenil das loucas fantasias, dos mórbidos histerismos, das vagas tristezas, das perenes indecisões, das estúpidas incertezas, dos prazeres ocultos e dos amores proibidos – todos os vícios de uma puberdade sensual, ignorante e ociosa. É o que estamos representando, como um parêntesis nebuloso, no meio do mundo moderno.Todos os estrangeiros notam, todos os viajantes consignam, todos os naturais que regressam à pátria depois da mais curta viagem por outras terras da Europa observam, que nós somos o país dos tristes, dos cismáticos, dos piegas, dos choramingas. Isto procede de sermos o país dos mandriões e dos ignorantes: a mandriice é a mãe do tédio; em século tão instruído como o actual a ignorância não pode deixar de produzir uma tristeza desconsolada, abatida e profunda. Sim, queridos compatriotas, consócios e amigos! Desenganemo-nos bem disto: ninguém na Europa sabe menos, ninguém trabalha menos do que nós na Europa» (Farpas I:113). Já então Eça de Queiroz, há 134 anos, também verberava o imenso peso do Estado na sociedade portuguesa e as nefastas consequências de tal omnipresença. Ouçamo-lo: «A classe média vive do Estado. A velhice conta com ele como condição da sua vida. Logo desde os primeiros exames no liceu, a mocidade vê nele o seu repouso e a garantia da sua tranquilidade. A classe eclesiástica não significa a realização de uma crença; é ainda uma multidão de desocupados que querem viver à custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, como se compreendia outrora, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietários procuram viver à custa do Estado vindo ser deputados a 2$500 reis por dia. A própria indústria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive também do Estado. A ciência depende do Estado. O Estado é a esperança das famílias pobres, e das casas arruinadas; é a ocupação natural das mediocridades; é o usufruto da burguesia. Ora como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais para filhos como uma fatalidade. Resulta uma pobreza geral. Com o seu ordenado ninguém pode acumular, poucos podem equilibrar-se. Nascem o recurso perpétuo para a agiotagem, a dívida, e a letra protestada, como elementos regulares da vida. Por outro lado, o comércio sofre dessa pobreza da burocracia, arruína-se, quebra, e fica ele mesmo na alternativa de recorrer também ao Estado, ou de cair no proletariado. O mesmo sucede aos industriais. A agricultura, sem recursos, sem progresso, não sabendo fazer valer a terra, arqueja à beira da pobreza e termina sempre recorrendo ao Estado» (Farpas I 29/30). Eça caricatura, exagera, mas no fundo sabe que há esperança, embora nem sempre a sinta ao virar da esquina, descrendo totalmente das reformas da administração pública como medida primeira para alterar a fatalidade: «As reformas… servem um, dois meses para pretexto de um ministério, para fingir que se administra, para se dar a entender que há zelo, para se iludir a plebe ingénua, para se imitar a missão de estadistas, para se parecer mais profundo, mais economista e mais jurisconsulto que a oposição – e depois, dali a pouco, tendo feito o seu serviço, vão todos os papéis velhos e inúteis ser desfeitos e enrodilhados sob as vassouras justiceiras dos srs. Varredores públicos!» (Farpas II:355). Como tudo isto nos parece tão estranhamente actual. Mas continuemos. Sobre a justiça do seu tempo disse Eça de Queiroz: «… a magistratura é um poder eminentemente conservador que entende perfeitamente tudo quanto não seja acrescentar a mínima inovação às coisas que ela estivera na véspera à noite a inventariar, comodamente embrulhada num cobertor de papa.» (Farpas I – 171). Ora, convenhamos, que hoje já não é assim: os juízes além do subsídio de residência e outros, têm ar condicionado no Verão e aquecedores no Inverno, dispensando o agasalho do cobertor, económico, é certo, mas inestético. Quanto ao resto … continua a haver entre eles muito cidadão que só tardiamente descobre que tem a vocação trocada: é que ele há muito médico, muito juiz, muito embaixador que o são apenas porque não quiseram contrariar os pais, revelando assim um enormíssimo amor filial, o qual, se é certo que em nada aproveita à pátria, aproveitou à vaidade da mátria. E por aqui ficamos. Já então Eça dizia que «… ninguém pode evitar que os nossos filhos sejam os herdeiros forçados das nossas enfermidades e das irregularidades das nossas feições, mas é de mais abusar dos direitos da paternidade até ponto de converter uma criaturinha graciosa e simpática no cabide irrisório das depravação artísticas do nosso gosto!» (Farpas I – 204). Se fossem só artísticas, as depravações, o erro não seria grave: a “geração rasca” do nosso tempo com certeza que teve nos progenitores quem a enrascou, pois creio que não nasceram todos por inseminação artificial e, quanto aos mestres que tiveram, tal como no tempo de Eça de Queiroz «o ensino é ordinariamente feito por sábios de pouco preço, para os quais os âmbitos da ciência bem como os da sociedade são igualmente cheios das trevas mais augustas e mais impenetráveis» (Farpas I – 206); «…os alunos habituam-se desde a infância, nos primeiros actos da sua vida civil, a descrerem do mérito do trabalho e do estudo, e a contarem para todo o êxito com a falseação das provas, com a mercancia da justiça e com a omnipotência do compadrio – perfeita iniciação para uma existência de intriga, da indolência e de desonra. […]. E esta será a bitola dos futuros cidadãos portugueses!» (Farpas I – 207/208). Assim escreveu Eça de Queiroz em 1871; que pena que se não tenha enganado».
In O Primeiro de Janeiro, 24/11/2005.


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